Violência em escolas católicas de França denunciada por grupo de ex-alunos
- 02/02/2026
A congregação religiosa católica Irmãos das Escolas Cristãs, fundada por São João Batista de La Salle no final do século XVII, garante que leva estas acusações "muito a sério" e declarou ter já indemnizado 70 pessoas.
Os membros do grupo, na maioria com idades entre 50 e 70 anos, denunciam crimes prescritos, cometidos entre 1955 e 1985 em cerca de 20 escolas pertencentes aos Irmãos das Escolas Cristãs, revelaram Philippe Auzenet, de 73 anos, e o outro cofundador do grupo, Philippe B. (inicial alterada), que prefere manter o anonimato, em declarações à agência de notícias francesa, AFP.
Os antigos alunos daquelas escolas católicas denunciam "atos de violência física", "bullying, humilhações" e, num "grande número" de casos, "toques inapropriados, agressões sexuais e violações", cometidos por religiosos ou professores leigos, a maioria dos quais já falecidos.
"Entre os sete e os nove anos, fui ameaçado de morte, agredido, amarrado, pendurado pelos pés, tinham facas de talho e ameaçavam arrancar-me os olhos. Isto arruinou a minha vida", relatou Philippe Auzenet.
Philippe B., de 62 anos, diz-se vítima de "violência e toques inapropriados" por religiosos e professores leigos entre 1969 e 1978.
"Eram estaladas, socos, pontapés. Algumas crianças eram espancadas pelos religiosos em frente de toda a turma, no púlpito, eram penduradas nos cabides ou colocadas em contentores do lixo", descreveu.
Durante a confissão, o padre podia "fazer perguntas sobre pensamentos impuros", como, por exemplo, 'Pensas em brincar com os órgãos sexuais dos teus amigos?' e acompanhá-las de gestos inapropriados", afirmou.
A congregação, "ciente (...) da sua responsabilidade", criou em 2014 uma unidade de apoio, encarregada de receber queixas e "acompanhar" as vítimas, escreveu o seu advogado, Matthias Pujos, num comunicado divulgado no domingo à noite.
Até ao momento, foram registadas 72 denúncias, 70 das quais já resultaram no pagamento de indemnizações, no total de 2.434.882 euros, de acordo com as recomendações da Comissão de Reconhecimento e Reparação (CRR) instituída pela Igreja de França.
Desde 2022, a congregação, que agora gere 150 instituições privadas em França, além de muitas outras em todo o mundo, apresentou também três queixas judiciais, como faz sistematicamente quando um dos seus membros acusado de irregularidades ainda é vivo, indicou o advogado.
O grupo de antigos alunos exige agora que a congregação reconheça a sua responsabilidade pelo que considera "violência sistémica" e a criação de um fundo de reparação de 100 milhões de euros e emitiu um apelo para recolher testemunhos.
Estas revelações surgem numa altura em que França ainda está a recuperar de um escândalo que envolve abusos físicos e sexuais de menores em Notre-Dame de Bétharram, no sudoeste do país, onde quase 250 queixas foram apresentadas por ex-alunos, acusando padres e leigos de atos cometidos entre o final da década de 1950 e o início da década de 2000.
Os ex-alunos só começaram a manifestar-se no outono de 2023, denunciando sexo oral e masturbação forçados, espancamentos, humilhações e tortura.
A Congregação dos Padres de Bétharram reconheceu a sua responsabilidade por estes atos no ano passado e tenciona indemnizar todas as vítimas.
Afetado por uma "amnésia traumática", Philippe Auzanet afirmou que "todas essas memórias vieram à superfície" durante o caso Bétharram.
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