Vietname preparou-se para uma eventual "guerra de agressão" com os EUA
- 03/02/2026
Um ano depois do Vietname ter elevado ao mais alto nível as relações diplomáticas com Washington, o documento, divulgado pelo The 88 Project, ONG de defesa dos direitos humanos focada nos abusos cometidos no Vietname, adianta que Hanói considera os Estados Unidos uma "potência beligerante".
Mais do que expor a ambiguidade da abordagem de Hanói em relação aos Estados Unidos, o documento confirma um receio profundamente enraizado de que forças externas possam fomentar um levantamento contra a liderança comunista, de acordo com a agência de notícias Associated Press (AP).
A isto chamam a "revolução colorida", à semelhança da 'Revolução Laranja', de 2004, na Ucrânia, ou da 'Revolução Amarela', de 1986, nas Filipinas.
"Existe aqui um consenso em todo o Governo e entre diferentes Ministérios. Não se trata apenas de um elemento marginal ou paranoico dentro do partido ou do Governo", afirmou Ben Swanton, codiretor do The 88 Project e autor do relatório.
O documento vietnamita original, intitulado "O Segundo Plano de Invasão dos EUA", foi elaborado pelo Ministério da Defesa em agosto de 2024.
"[Ao procurar] atingir o objetivo de reforçar a dissuasão face à China, os Estados Unidos e aliados estão preparados para aplicar formas não convencionais de guerra e de intervenção militar e até para conduzir invasões em grande escala contra países e territórios que 'se desviem da sua órbita'", indica o documento.
Embora reconheçam que "atualmente existe "pouco risco" de uma guerra contra o Vietname, os estrategas vietnamitas escreveram que, "devido à natureza beligerante dos Estados Unidos", é necessário manter vigilância para impedir que Washington e os aliados "criem um pretexto para lançar uma invasão ao nosso país".
Os analistas militares vietnamitas descreveram o que consideram ser uma evolução ao longo de três administrações - desde Barack Obama, passando pelo primeiro mandato de Donald Trump, até à presidência de Joe Biden - com Washington a intensificar progressivamente relações militares e de outra natureza com países asiáticos, para "formar uma frente contra a China".
Em 2023, Biden assinou uma "Parceria Estratégica Abrangente" com o Vietname, elevando as relações entre os dois países ao mais alto nível diplomático, ao mesmo nível do da Rússia e China, enquanto "parceiros de confiança com uma amizade baseada no respeito mútuo".
No entanto, no documento militar de 2024, os estrategas vietnamitas afirmaram que, embora os Estados Unidos vejam o Vietname como "um parceiro e um elo importante", pretendem igualmente "difundir e impor os seus valores em matéria de liberdade, democracia, direitos humanos, etnia e religião", visando alterar gradualmente o governo socialista do país.
"O 'Segundo Plano de Invasão dos EUA' oferece uma das análises mais lúcidas até hoje sobre a política externa do Vietname. Mostra que, longe de ver os EUA como um parceiro estratégico, Hanói encara Washington como uma ameaça existencial e não tem qualquer intenção de integrar uma aliança anti-China", escreveu Swanton.
Sob a liderança de To Lam, que se tornou secretário-geral do Partido Comunista sensivelmente na mesma altura em que o documento foi redigido, o Vietname avançou no reforço dos laços com os Estados Unidos, sobretudo durante a presidência de Trump, afirmou Nguyen Khac Giang, do Instituto Yusof Ishak de Singapura, um centro de investigação política sobre temas asiáticos.
Lam foi reconduzido no cargo de secretário-geral em janeiro e deverá também assumir a presidência, tornando-se na figura mais poderosa do país em várias décadas.
Com Lam à frente do país, o grupo empresarial da família Trump lançou um projeto imobiliário de luxo e de um campo de golfe com a marca do Presidente norte-americano, avaliado em 1.500 milhões de dólares (1.270 milhões de euros), na província de Hung Yen, no norte do Vietname.
O dirigente vietnamita aceitou quase de imediato o convite de Trump para integrar o Conselho da Paz para a Faixa de Gaza, uma decisão considerada invulgarmente rápida, numa altura em que as opções de política externa são, em regra, cuidadosamente ponderadas tendo em conta a possível reação de Pequim, indicou Giang.
No entanto, a operação militar de Trump destinada a capturar o líder venezuelano Nicolás Maduro deu aos setores conservadores vietnamitas novos argumentos para uma inquietação em relação a um maior estreitamento de relações com Washington.
Qualquer ação militar norte-americana que envolva Cuba, aliada de Hanói, poderá perturbar o equilíbrio estratégico do Vietname, avisou Giang.
"Cuba é muito sensível. Se algo acontecer em Cuba, isso provocará ondas de choque entre as elites políticas vietnamitas. Muitos mantêm laços muito fortes e estreitos com Cuba", advertiu.
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