Presos pelo bloqueio do estreito de Ormuz há quase 100 dias: 'Só existe uma saída'
03/06/2026
(Foto: Reprodução) O capitão Islam, do navio Banglar Joyjatra (segundo da direita para a esquerda, na primeira fila), e o engenheiro-chefe Rashedul Hasan (à esquerda do capitão) gravam um vídeo para elevar o moral da tripulação
RASHEDUL HASAN via BBC
Às vezes, o mar está tão calmo que o capitão Hassan Khan (nome fictício) chega a esquecer que o seu navio está parado há três meses no meio de uma zona de guerra.
"É estranho ver tudo aparentemente normal do lado de fora quando ninguém aqui dentro consegue ficar tranquilo", diz o marinheiro paquistanês, que prefere não revelar o nome verdadeiro.
Mas a normalidade é só aparente. Khan e outros 20 mil marinheiros estão presos no estreito de Ormuz ou em áreas próximas desde 28 de fevereiro, por causa da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã. O que antes era uma das rotas marítimas mais movimentadas do mundo, por onde passava um quinto do petróleo e gás consumidos globalmente, agora está praticamente tudo parado, enquanto mísseis cruzam o céu e minas são espalhadas debaixo d'água.
Mesmo assim, a tripulação no navio capitaneado por Khan tenta manter a rotina de trabalho. No entanto, ninguém quer deixar o navio nas raras ocasiões em que é permitido desembarcar. As conversas descontraídas deram lugar a um silêncio tenso, quebrado apenas pelo barulho dos celulares. Qualquer som assusta a tripulação, até durante o sono.
"O estresse não sai da cabeça", afirma Khan. "Todo mundo está exausto, física e mentalmente."
Travessias e abastecimento
Segundo a Organização Marítima Internacional (OMI), 1.600 navios estão presos no estreito de Ormuz
BBC
Mesmo sem considerar o risco representado por mísseis e minas, os 1.600 navios que, segundo a Organização Marítima Internacional (OMI), estão presos no estreito de Ormuz não conseguem partir. Dias após o início da guerra, o Irã fechou a estreita passagem marítima, a única saída do Golfo, e passou a impedir travessias sem autorização expressa do país.
"É como se estivéssemos presos em uma lagoa. Só existe uma saída, e ela é Ormuz", explica outro marinheiro, o capitão Shafiqul Islam.
Islam, cujo navio Banglar Joyjatra, de bandeira de Bangladesh, transporta cerca de 37 mil toneladas de fertilizante com destino à África do Sul, tentou deixar a região duas vezes nos últimos meses.
As duas tentativas fracassaram.
Após o anúncio de um cessar-fogo em 8 de abril, Islam soube que outro navio havia recebido autorização da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) para atravessar o estreito. Ele então conduziu a sua embarcação em direção à passagem estratégica junto com outros quatro navios. Pouco depois, receberam ordens para não seguir viagem.
Nove dias depois, Islam tentou novamente, após o Irã afirmar que o estreito estaria "completamente aberto" para embarcações comerciais, em linha com o cessar-fogo entre Israel e Líbano (que passou a ser atacado por Israel porque o Hezbollah, que atua em território libanês, reagiu aos ataques americanos e israelenses ao aliado Irã). Mas o Irã voltou atrás rapidamente depois que os EUA mantiveram o bloqueio aos portos iranianos.
Naquele momento, o navio de Islam já estava a menos de 55 km do estreito. Sem alternativa, ele precisou mudar de rota enquanto alertas sobre possíveis ataques continuavam ecoando pelo rádio.
Navios mudaram de porto ou permaneceram ancorados em áreas do Golfo consideradas mais seguras. Mas o abastecimento de comida e água se tornou uma preocupação cada vez mais urgente.
Ainda é possível repor suprimentos sem necessariamente entrar em portos, já que a região do Golfo, especialmente áreas próximas a Dubai, Abu Dhabi e Kuwait, possui serviços de abastecimento bem estruturados. Mas as entregas se tornaram imprevisíveis.
Entre os itens essenciais, o preço da água foi o que mais subiu, afirma Rashedul Hasan, engenheiro-chefe do navio Banglar Joyjatra. "Compramos cerca de 180 toneladas de água para o navio há dois dias. Antes, isso custava entre US$ 1.500 e US$ 2.000 (entre R$ 8,1 mil e R$ 10,8 mil). Agora, estamos pagando US$ 11 mil (cerca de R$ 59,5 mil)."
"Também parece que alguns fornecedores de comida e água estão tentando se aproveitar da situação para lucrar excessivamente", afirma um marinheiro sul-coreano que preferiu não se identificar. Ele está em outro navio.
Os navios retidos precisarão de ainda mais água com a chegada do verão. A temperatura do ar já ultrapassou os 30°C em maio e pode chegar a 45°C.
No navio de Khan, eles "ainda têm comida e água, mas as coisas agora são mais simples". Segundo ele, ainda é possível conseguir carne bovina e frango, mas verduras e lentilhas estão escassas.
Morte e diplomacia
Irã divulga imagens de lanchas rápidas de ataque no Estreito de Ormuz
Ainda assim, Islam se considera com sorte. No segundo dia do conflito, seu navio estava a apenas 200 metros do porto de Jebel Ali, em Dubai, uma distância equivalente ao comprimento de um petroleiro de porte médio, quando o local foi alvo de um ataque iraniano.
Desde então, Islam e os 30 integrantes de sua tripulação perderam a conta de quantos ataques testemunharam. "Às vezes, os mísseis passam sobre um navio, e os destroços caem no seguinte", afirma o capitão.
"Sempre que os ataques continuavam durante a noite, ninguém conseguia dormir", diz Hasan, o engenheiro. "Vimos o horror e a destruição com os próprios olhos."
O medo tem motivo. Pelo menos 11 marinheiros morreram, e outro segue desaparecido, em 39 incidentes confirmados, segundo a OMI.
A tensão diminuiu um pouco após o cessar-fogo, mas as operações militares em andamento no estreito mostram como a situação continua frágil.
Alguns marinheiros ainda avistam drones e caças militares, enquanto outros relatam a presença frequente de navios de guerra e submarinos.
"Essas embarcações usam luzes muito fortes. Também ouvimos anúncios pelos alto-falantes. O capitão diz que os iranianos fazem isso para impedir qualquer travessia", afirma Sajid Masood, paquistanês que trabalha como cozinheiro em um petroleiro. O nome dele foi alterado.
Mas existe alguma saída para os marinheiros presos na região?
As empresas de navegação certamente esperam encontrar uma forma de reduzir os custos com tripulação.
No início da guerra, muitas companhias ofereceram salários mais altos e benefícios extras para convencer marinheiros a permanecerem nos navios, afirma o marinheiro paquistanês Kamil, que usa um nome fictício.
Mas agora as empresas enfrentam prejuízos enormes e passaram a informar aos funcionários que quem quiser deixar o trabalho poderá fazê-lo, ao mesmo tempo em que reduzem salários e benefícios, acrescenta Kamil.
O que acontecerá depois, e quem substituirá esses trabalhadores no futuro, é menos claro.
Os contratos de muitos marinheiros estão vencendo e a troca de tripulações já deveria ter ocorrido há bastante tempo.
Mas, diante da situação atual, será difícil encontrar profissionais suficientes para operar esses navios, mesmo depois do fim da guerra.
"Essa crise mostrou como esse trabalho pode se tornar perigoso", afirma Kamil. "Muitos marinheiros podem passar a enxergar essa profissão de outra forma." Ele teme que o acesso às rotas marítimas internacionais passe a ser usado como arma em conflitos futuros.
Masood, o cozinheiro, também começou a reconsiderar sua carreira no mar, e falta apenas um mês para o fim de seu contrato.
Antes de tomar qualquer decisão definitiva, ele só quer voltar ao Paquistão e levar presentes de Dubai para a família: bonecas Barbie para as filhas e um avião de brinquedo para o filho.
"Eu achava que voltaria para casa em breve, mas continuamos presos perto do estreito de Ormuz, sem qualquer plano claro para o futuro", afirma Masood.
E acrescenta: "Todos os dias minha família pergunta quando vou voltar, mas eu não tenho resposta."
Alguns navios, cerca de 750 desde 28 de fevereiro, segundo a empresa de dados marítimos Kpler, conseguiram atravessar o estreito de Ormuz.
De acordo com Jonathan Schroden, da CNA, organização de pesquisa sem fins lucrativos sediada em Washington D.C., nos EUA, os proprietários dessas embarcações parecem ter recorrido a negociações diplomáticas diretas com o Irã. A maioria dos navios vinha da China, da Índia e do Paquistão.
Segundo Schroden, também há indícios de que tenha sido pago "um valor de alguns milhões de dólares por navio".
A diplomacia agora é a principal esperança do navio Banglar Joyjatra, e o governo de Bangladesh vem trabalhando com a estatal Bangladesh Shipping Corporation (BSC) para tentar garantir a saída da embarcação.
Mas isso também tem se mostrado difícil.
O diretor-geral da BSC, o comodoro Mahmudul Malek, afirmou que Bangladesh inicialmente concordou em pagar a taxa exigida pelo Irã. Mas o plano foi abandonado depois que os EUA ameaçaram impor sanções a qualquer país que fizesse o pagamento.
"Estamos vivendo uma crise dupla agora", afirma Malek.
Reportagem adicional de Hyojung Kim, da BBC News Coreia.