Polícia migratória dos EUA diz ter detido ex-chefe do PCC e do CV
16/06/2026
(Foto: Reprodução) Felipe Linares De Oliveira Dell Aquilla, o Don
Divulgação
A polícia migratória americana (ICE) anunciou nesta segunda-feira (15) a prisão do brasileiro Felipe Linares De Oliveira Dell Aquilla, também conhecido como "Don", que chamou de ex-chefe das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).
Segundo o comunicado, a prisão ocorreu no dia 5 de junho, após uma perseguição na Carolina do Norte (leia mais abaixo).
✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp
📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia
Dell Aquilla tinha uma ordem de busca e captura da Interpol em aberto, solicitada pelo Brasil sob as acusações de "associação criminosa" e "extorsão", afirmou o ICE.
O comunicado do ICE, no entanto, causou estranheza entre investigadores e órgãos de inteligência consultados pelo g1 e pela GloboNews.
Fontes da Polícia Federal, dos Ministérios Públicos de São Paulo e do Rio de Janeiro, das Polícias Civis dos dois estados e dos serviços de inteligência afirmaram não reconhecer o investigado como integrante relevante ou chefe das organizações criminosas PCC e CV.
O mandado de prisão que embasou a inclusão do nome de Dell Aquilla na Difusão Vermelha da Interpol é decorrente de uma condenação definitiva pelo crime de extorsão.
Segundo os documentos consultados pela equipe de reportagem, a pena fixada foi de nove anos e sete meses de prisão, além de ser réu por dar um golpe em um hotel de luxo de Campos do Jordão (SP).
Segundo a apuração, autoridades consultadas disseram não ter conhecimento sequer de que Dell Aquilla seja formalmente vinculado a facções criminosas no Brasil. (leia mais abaixo)
Como foi a prisão
Dell Aquilla tentava fugir de carro para o México, quando foi interceptado em um controle de tráfego na cidade de Mooresville, na Carolina do Norte. Segundo as autoridades americanas, ele mantinha a própria esposa como refém no carro.
Ao tentar fugir, o brasileiro sofreu um acidente de trânsito e tentou escapar a pé, mas foi capturado. No veículo, foram encontrados uma arma, dinheiro em espécie e celulares, de acordo com o comunicado.
Dell Aquilla, que segundo o ICE entrou ilegalmente nos EUA, foi encaminhado para a cadeia e agora responde a acusações estaduais de crime grave por fuga para evitar prisão. Ele também pode ser acusado por posse de arma de fogo por estrangeiro e sequestro.
"Ao retirar de circulação um líder conhecido de organizações terroristas estrangeiras violentas — procurado por crimes graves, incluindo associação criminosa e extorsão — evitamos novos danos a pessoas inocentes aqui e no exterior", afirmou Mark M. Zito, agente especial do Departamento de Segurança Interna dos EUA após a prisão.
Material apreendido com Felipe Linares De Oliveira Dell Aquilla, o Don
Divulgação
Material apreendido com Felipe Linares De Oliveira Dell Aquilla, o Don
Divulgação
Designação terrorista
Em 28 de maio, os Estados Unidos designaram como organizações terroristas o PCC e o CV, apesar da oposição do governo brasileiro.
Em maio de 2025, o chefe interino de coordenação do Departamento de Sanções dos Estados Unidos, David Gamble, pediu que o governo brasileiro classificasse o PCC e o CV como organizações terroristas. O pedido foi negado.
À época, o secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, afirmou que as facções não se enquadram na definição de terrorismo prevista na Constituição brasileira.
A Lei Antiterrorismo, sancionada no Brasil em 2016, define terrorismo como a prática de atos motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou religião, visando provocar terror social ou generalizado.
Quem é Dell Aquilla
De acordo com as fontes ouvidas por g1 e GloboNews, Dell Aquilla atua no ramo do entretenimento e teria trabalhado em uma produtora musical cujo proprietário já foi alvo de investigação da Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro.
Levantamento realizado pela reportagem em processos envolvendo o investigado mostra que ele aparece como alvo de apurações e acusações relacionadas a crimes como extorsão, tráfico, estelionato, ameaça e lesão corporal.
Há informações de investigações indicando que ele teria afirmado ter recebido recursos provenientes de integrantes do PCC e do Comando Vermelho, hipótese analisada em apurações sobre movimentações financeiras. No entanto, os investigadores consultados ressaltam que isso não o coloca na condição de líder ou integrante relevante das facções.
Golpe em Campos do Jordão
No processo em que a reportagem teve acesso, Felipe Linares é réu por dar um golpe no Hotel Botanique, um dos mais caros e de luxo da cidade de Campos do Jordão, no interior de São Paulo, em 2018.
Consta na denúncia que ele comprou duas diárias para um casal, por R$ 9,2 mil, se hospedou no hotel, mas reportou para a empresa de cartão de crédito que não reconhecia a compra. Ele então recebeu o reembolso, e o hotel ficou no prejuízo.
No processo, o hotel alegou que ele mesmo se hospedou, porque puxou a placa do carro BMW que Aquila usava no dia da hospedagem. O carro estava no nome dele mesmo, mesmo nome da reserva e do cartão de crédito usado no golpe.
Desde 2018 a Polícia Civil e a Justiça paulista tentavam intimar o réu, mas nunca encontravam ele em nenhum endereço. Ele está sendo julgado a revelia.
No mesmo processo também consta que Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla tem histórico criminal de agressão a uma ex-namorada. Del Aquilla também é acusado de não deixar um imóvel que foi vendido por ele ao antigo proprietário do imóvel.