"Onde está a justiça?" O relato comovente de uma vítima de Crans-Montana
- 10/02/2026
Melanie Van de Velde, uma das sobreviventes do incêndio em Crans-Montana, na Suíça, na noite de Ano Novo, deixou um relato comovente nas redes sociais para dar voz "àqueles que pagam o preço mais alto", enquanto "as responsabilidades permanecem obscuras, silenciosas e diluídas".
Com a ajuda do advogado, a mulher de 32 anos escreveu uma mensagem emotiva na qual explica que "o esquecimento é insuportável quando se vive com cicatrizes permanentes".
Melanie, natural da cidade francesa de Angers, sofreu queimaduras graves "em quase 40% do corpo" e revela que já não se reconhece "ao espelho".
"O meu corpo tornou-se num campo de batalha. Cada troca de curativo, a cada dois dias, é uma provação. Cada tratamento reacende a dor", explica a mulher que, na madrugada de 1 de janeiro, saltou "de uma grade, não por bravura, mas porque naquele exato momento, o fogo era mais forte que o medo".
"O meu rosto nunca mais será o mesmo. O rosto que eu reconhecia no espelho não existe mais. Nem o rosto que minha filha conhecia. É uma perda íntima e silenciosa, impossível de explicar para quem não passou por isso", escreveu, numa longa mensagem publicada no Facebook na noite de domingo, 8 de fevereiro.
Melanie, que foi inicialmente hospitalizada em Zurique e, mais tarde, transferida para Nantes, conta que continua longe da filha, que não pode "abraçar quando a dor se torna insuportável".
"O meu rosto nunca vai recuperar os seus traços. A minha pele levará para sempre a memória daquela noite. E a minha mente também", continuou, apontando o dedo aos culpados: "Enquanto eu passo por grandes cirurgias, enquanto eu reaprendo a morar num corpo profundamente danificado, outros continuam a viver normalmente. Enquanto eu passo por grandes cirurgias, enquanto eu reaprendo a morar em um corpo profundamente danificado, outros continuam a viver normalmente. Livres. Sem as queimaduras. Sem as cicatrizes. Sem noites assombradas."
"Onde está a justiça quando a vítima usa marcas visíveis e invisíveis para a vida, e as responsabilidades permanecem incertas, silenciosas, diluídas? Onde está a justiça quando falamos de drama, mas desviamos as consequências humanas dela? Onde está a justiça quando pede a uma mulher queimada para se reconstruir enquanto o mundo continua como se nada tivesse acontecido?", questiona.
Garantindo que não escreve "por vingança", mas porque "o silêncio é uma segunda queimadura", Melanie assegura que "até que essa realidade não seja totalmente reconhecida", a sua dor "não será apenas médica".
Neste momento, os proprietários do bar Le Constellation, onde morreram 41 pessoas no incêndio na noite de Ano Novo, estão ambos em liberdade.
Jacques Moretti chegou a ser detido e esteve em prisão preventiva de 9 a 23 de janeiro, mas foi libertado após o pagamento de uma caução de 200 mil francos suíços (cerca de 215 mil euros). Tal como a mulher, Jessica Moretti, que permanece em liberdade, Jacques Moretti ficou sujeito a "medidas alternativas" destinadas a reduzir o risco de fuga.
Enquanto proprietários do bar, Jacques e Jessica Moretti são alvo de uma investigação criminal por homicídio culposo, ofensas corporais culposas e incêndio criminoso culposo.
Entre as medidas impostas contam-se a proibição de sair do país, a entrega de todos os documentos de identificação ao Ministério Público, a obrigação de apresentação diária numa esquadra da polícia e o pagamento da caução fixada.
No passado dia 30 de janeiro, o Gabinete Federal de Proteção Civil da Suíça informou à agência de notícias France-Presse (AFP) que, até 26 de janeiro, 44 feridos ainda estavam a receber tratamento em hospitais no estrangeiro, incluindo 18 em França, 12 em Itália, oito na Alemanha e seis na Bélgica.
Já o Ministério da Saúde de Wallis indicou que 37 feridos estavam em hospitais suíços.















