Maputo. Centenas isoladas pelas chuvas dependem da Marinha para trabalhar
- 14/01/2026
"Estamos cansados", diz à Lusa Luís Castigo, 27 anos, antes de subir no bote que o vai levar, a ele e a mais meia dúzia de vizinhos, de volta a Djuba, aldeia do distrito de Boane, província de Maputo.
A quase 50 metros, a ponte que liga à aldeia, a partir da estrada Nacional 2, está totalmente fechada. Deixou mesmo de ser visível, tal é o volume de água que corre, galgando a travessia desde segunda-feira. Duas fitas dos bombeiros em cada margem sinalizam o óbvio: Proibido atravessar.
A solução, única, é cruzar o rio Umbeluzi de barco, nomeadamente dois botes da Marinha, dois barcos do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) e outro do Instituto de Transporte Marítimo (Itransmar), num vaivém que praticamente não para das 06:00 até às 17:00, assegurando o transporte gratuitamente.
As autoridades moçambicanas têm vindo a emitir, nos últimos dias, avisos vermelhos para a ocorrência de fortes chuvas e trovoadas, que estão a provocar inundações sobretudo no centro e sul, com várias bacias hidrográficas em risco, nomeadamente em Maputo, incluindo Boane. Em causa, as chuvas mais intensas em vários anos, que por sua vez estão a obrigar à abertura de barragens, incluindo nos países vizinhos.
"Quando chove fica assim. Não sabemos se esta água é da chuva ou se abriram as barragens", questiona Luís Castigo, que trabalha nas ferragens e tenta regressar a casa, mais cedo.
Por dia, segundo dados oficiais recolhidos pela Lusa no terreno, são transportadas de e para Djuba, entre as margens do rio Umbeluzi, 1.800 a 1.600 pessoas nos barcos disponibilizados pelo Estado, travessia de poucos minutos, com todos os passageiros equipados obrigatoriamente com coletes salva-vidas.
O problema é quem chega do serviço ao final do dia já só encontra pequenos barcos a remo, de vizinhos, que agora procuram faturar com estes passageiros, embora sem condições.
"Quando chega ainda cedo, 10 meticais [13 cêntimos de euro], mas fora de horas, 19:00 ou 20:00, pode ser 50 meticais [67 cêntimos]. E você está preocupado em chegar a casa", explica Luís.
Os barcos disponibilizados pelo Estado, com apoio ainda da polícia, bombeiros e município de Boane, são uma ajuda, mas mais importante era resolver o problema, reclama o jovem, recordando que sempre que chove acima do normal quem mora em Djuba fica sem solução.
"Não temos condições, não temos dinheiro", desabafa, já de colete salva vidas colocado, avistando a casa ao longe, enquanto a chuva cai cada vez com maior intensidade.
Os botes vão e vêm e Maria esperou alguns minutos pelo próximo para poder voltar a casa, do outro lado. "Está muito difícil", atira, de galochas, antes de colocar o saco plástico a proteger a cabeça.
Conseguiu chegar à margem com os botes da Marinha a funcionar. Se viesse mais tarde, teria de pagar a um dos barcos privados, na escuridão e perante a crescente força do rio: "Atrasamos, temos que pagar aqueles barcos".
Já Gisela Mazangue, estudante, saiu de casa para ir às compras ao final da manhã. Ao chegar à margem, ensopada e depois de poucos minutos de barco desde a aldeia de Djuba, lamenta: "Não está fácil".
Conseguiu apanhar o barco das autoridades, o receio é se chega ao mesmo local, para voltar a aldeia, depois das 17:00.
"Temos que pegar barco e pagar dinheiro quando os do município não estão", observou, queixando-se também de atrasos na saída destes transportes de recurso.
"Está difícil para voltar para casa", desabafa.
Em Maputo, província e cidade, multiplicam-se nos últimos dias as vias inundadas pelas chuvas e subida das águas, com as autoridades a descrever este período como um dos mais chuvosos dos últimos anos.
Em todo o país, desde o início da época chuvosa, em outubro, segundo o INGD, já morreram pelo menos 94 pessoas, devido às fortes chuvas, situação que se agravou sobretudo desde o final de dezembro.
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