Kallas sugere "mecanismo" para punir violações do direito internacional
- 02/02/2026
Numa conversa com o primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre, na Conferência de Segurança de Oslo, Kajas Kallas defendeu que "as grandes crises internacionais" serviram sempre de base para "se desenvolver ainda mais o sistema internacional", sugerindo que é preciso aproveitar o atual contexto geopolítico para se reformular o funcionamento da Organização das Nações Unidas (ONU).
"A ONU não está claramente a funcionar como deveria", afirmou Kallas, que referiu que, quando viaja pelo mundo, percebe que "muitos países querem uma ordem mundial baseada em regras, porque a maioria são de tamanho pequeno ou médio e, por isso, é essa ordem que os protege".
"Mas, quando não funciona, também não oferece essa proteção", avisou, defendendo que o mundo se encontra numa situação em que "precisa de desenvolver ainda mais o direito internacional com os países que desejam essa ordem baseada em regras".
Numa análise ao que falta para que esse direito internacional se torne mais efetivo, Kaja Kallas sugeriu que é preciso garantir que qualquer país que viole a Carta das Nações Unidas seja efetivamente responsabilizado.
"A Carta das Nações Unidas é muito boa, os princípios que contém são muito bons, mas falta realmente um mecanismo de responsabilização, ou seja, [estabelecer] o que acontece quando esses princípios são violados", disse, frisando que, atualmente, os membros do Conselho de Segurança da ONU podem violar esses princípios de maneira impune.
"Se um desses membros atacar outro país, em violação total da Carta das Nações Unidas, não se pode fazer nada, e isso também não reflete a atual ordem mundial. Por isso, há uma base sólida sobre a qual podemos construir e acho que devemos aproveitar esta oportunidade para ir mais longe", disse.
Nesta conversa, questionada sobre a atual postura de Donald Trump perante a Europa, Kaja Kallas referiu que, se se olhar para a política transatlântica dos Estados Unidos nos últimos tempos, vê-se que essa mudança "não começou verdadeiramente com o Presidente Trump".
"Há muita convergência [entre Trump] e as diferentes administrações. Pode ser fácil pensar que, quando vierem as eleições, muda a personalidade [e a postura muda]. Mas acho que é uma política de longo prazo a que devemos estar atentos", defendeu.
Sobre se defende a criação de Forças Armadas europeias, autónomas da NATO, como tem sido defendido por exemplo por Espanha, Kaja Kallas considerou que quem faz esse tipo de propostas "não pensou em tudo do ponto de vista prático".
"Eu fui primeira-ministra [da Estónia] e sei que cada país tem um exército, um orçamento, que já pertence à NATO. E não se pode criar simplesmente um exército separado, para além do exército que já se tem, sobretudo porque, em tempos de crise, o mais importante é a cadeia de comando: quem dá ordens", disse, referindo que a criação de umas Forças Armadas europeias em conjunto com a NATO iria criar confusão.
"A bola simplesmente iria cair entre as cadeiras, e isso é muito perigoso", disse.
Nesta conversa, a Alta Representante foi ainda questionada se concorda com a proposta do comissário europeu da Defesa, Andrius Kubilius, que defendeu a criação de um Conselho de Segurança Europeu para debater "os grandes temas", composto por cinco países grandes e outros cinco rotativos, além das instituições europeias.
Na resposta, a chefe da diplomacia da UE salientou que já há atualmente um Conselho de Defesa europeu, que reúne mensalmente os ministros da Defesa dos 27, além do Conselho Europeu.
"Acho que não precisamos de mais instituições. Só precisamos de implementar os planos que já temos", defendeu.
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