Especialista alerta que falhas agravam mortes em acidentes em Angola
- 29/01/2026
Esta é uma das principais conclusões do livro "Mobilidade e Infraestruturas -- Tendências e impostos na sinistralidade e segurança rodoviárias", que vai ser lançado na sexta-feira e na qual o autor, Vasco da Gama, analisa a sinistralidade rodoviária em Angola, comparativamente a Portugal e ao Brasil, e identifica falhas estruturais que contribuem para o elevado número de mortos nas estradas angolanas.
Em entrevista à Lusa, o especialista, professor do Instituto Superior de Polícia e oficial superior da Polícia Nacional, sublinha que um maior número de acidentes não significa necessariamente mais vítimas mortais, dando como exemplo o ano de 2019, em que Portugal registou mais de 36 mil acidentes rodoviários, que resultaram em 688 mortos, enquanto Angola contabilizou cerca de 10.700 acidentes, mas com 2.227 mortos.
Para o autor, a diferença explica-se sobretudo pela ausência de infraestruturas de segurança, pelo estado técnico dos veículos e pela fragilidade do sistema de socorro em Angola.
Segundo o especialista, muitos acidentes que em outros países teriam consequências limitadas acabam por ser fatais no contexto angolano devido à falta de separadores centrais, iluminação pública, sinalização adequada e outros elementos de segurança passiva e ativa.
Separadores centrais nas vias, por exemplo, podem evitar que um veículo em despiste saia da estrada e abalroe outra viatura agravando as consequências dos acidentes.
A sinistralidade rodoviária é a segunda principal causa de morte em Angola, logo a seguir ao paludismo, mantendo-se elevada e com pouca variação de ano para ano, um problema agravado, segundo Vasco da Gama, pelo facto de muitas vítimas serem jovens, o que representa um impacto social e económico significativo.
Em 2024, Angola registou 3.120 mortes e 16.282 feridos, resultantes de 12.303 acidentes de viação, o que representa uma média de cerca de nove mortes por dia nas estradas angolanas.
Entre os fatores que contribuem para este cenário estão a falta de educação rodoviária e o desconhecimento das regras de trânsito, tanto por parte de condutores como de peões.
Muitos automobilistas circulam sem carta de condução, enquanto os peões desconhecem normas básicas de segurança, como a forma correta de atravessar a via ou a importância da visibilidade durante a noite.
"Temos um conjunto de condutores que não respeitam as regras de trânsito, muitos deles não as conhecem", afirmou o investigador.
Vasco da Gama apontou ainda um sentimento de impunidade associado a uma fiscalização pouco dissuasora, defendendo o endurecimento das sanções.
"Pagar uma multa, se for uma multa um pouco branda, acaba por não inibir a atitude de ir para a estrada violando as regras de trânsito", disse, sugerindo "medidas drásticas e que doem no bolso dos condutores".
Para o académico, a responsabilidade não pode ser atribuída apenas aos utentes da via, recaindo também sobre o Estado, em particular devido à ausência de uma abordagem equilibrada às condições das infraestruturas rodoviárias, com muitas estradas nacionais a atravessar zonas habitadas sem os mínimos requisitos de segurança.
O autor defende igualmente a importância do mapeamento dos chamados "pontos negros", locais onde os acidentes ocorrem de forma reiterada.
Segundo Vasco da Gama, Angola dispõe de dados suficientes para identificar essas zonas, sendo necessário avançar para intervenções técnicas específicas que permitam reduzir a letalidade dos acidentes ou mesmo deslocar esses pontos críticos.
Entre os exemplos, citou o caso da avenida Deolinda Rodrigues, em Luanda, onde a instalação de passadeiras e pontes pedonais contribuiu para a redução dos atropelamentos.
Questionado sobre alguns mitos enraizados nos automobilistas e transmitidos pelos próprios agentes da polícia de trânsito, como a ideia de que não se pode virar à esquerda nos cruzamentos, o investigador considerou que, aliados à fraca cultura de cumprimento das regras, estes mitos podem contribuir para comportamentos de risco e para o agravamento da sinistralidade nas estradas do país.
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