Embaixador brasileiro defende "autoridade residual" da ONU
- 17/01/2026
Antigo ministro dos Negócios Estrangeiros e ex-representante permanente do Brasil nas Nações Unidas, Patriota admitiu que "as Nações Unidas não estão resolvendo assuntos para os quais foi criada" e reconheceu que existem limites à intervenção da organização.
"Não é sempre que as Nações Unidas conseguem operar, então isso não é propriamente novo. Agora, as Nações Unidas preservam uma autoridade residual que é muito importante", vincou o diplomata, em entrevista hoje à agência Lusa em Londres.
O diplomata destacou o que chamou de "corolário Kofi Annan", lembrando que, ao não autorizar a intervenção no Iraque, a ONU preservou a sua credibilidade, apesar da incapacidade de pôr termo a conflitos.
"O facto de não conseguir resolver [conflitos] é lamentável, mas o de não legitimar comportamentos ilegais preserva autoridade", afirmou.
António Patriota defendeu a necessidade de acelerar a reforma da ONU, em particular no Conselho de Segurança, ampliando tanto os assentos permanentes como os não permanentes, e onde o Brasil ambiciona ter um lugar.
Brasília, precisou, "tem defendido essa expansão desde o início e há uma maioria significativa favorável", mas apontou que "um grupo de países continua a bloquear o processo".
"As consequências do imobilismo às vezes são a degradação e a erosão da autoridade do mecanismo em si. E isso aí acho que será prejudicial para todos. Alguns países poderosos podem achar que convivem bem à margem do direito internacional, do multilateralismo, mas descobrirão rapidamente que esse será um mundo muito imprevisível, muito inseguro", alertou.
O embaixador defendeu igualmente o reforço da Assembleia Geral como via alternativa quando o Conselho de Segurança está paralisado e considerou que o futuro secretário-geral da ONU deve ser "mais empoderado" para agir em situações de violação das normas internacionais.
O diplomata brasileiro alertou ainda contra o ressurgimento de "esferas de influência", qualificando essa ideia como um "retrocesso para a cooperação internacional", e defendeu a criação de uma "coligação dos responsáveis" entre países e entidades comprometidos com o direito internacional.
"Eu acho que ela informalmente já está a criar-se. E os diferentes atores sabem quem está a favor da preservação das Nações Unidas, do direito internacional, da Corte [Tribunal] Internacional de Justiça, da racionalidade."
Na sua opinião, esta coligação junta "a grande maioria dos governos", assim como a sociedade civil, académicos, imprensa e juventude.
Patriota falava à margem de um evento organizado no Methodist Central Hall, em Westminster, para celebrar a criação da Assembleia das Nações Unidas, na mesma sala onde teve lugar a primeira sessão, em 10 de janeiro de 1946.
O evento foi aberto pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, e contou com a participação de outras personalidades, como o antigo secretário-geral da NATO, George Robertson, e a presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Annalena Baerbock.
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