Donos de bar na Suíça culpam empregada (que morreu): "Somos vítimas"
- 31/01/2026
Os proprietários do bar Le Constellation, em Crans-Montana, na Suíça, que se incendiou durante a noite da passagem de ano, culparam Cyane Panine - a empregada que nos vídeos usava um capacete e segurava duas garrafas de champanhe com fogos de artifício - do incidente.
Jacques e Jessica Moretti foram ouvidos em tribunal, na semana passada, na sequência do incêndio, que provocou 40 vítimas mortais, incluindo menores, e centenas de feridos.
O casal, que é acusado de homicídio, lesões corporais e incêndio criminoso por negligência, tentou rejeitar qualquer responsabilidade direta na tragédia, relatou o jornal francês Le Parisien.
Na sua defesa, Jacques Moretti não terá hesitado em apontar o dedo aos seus funcionários, incluindo aqueles que constam na lista das vítimas mortais e que não se podem defender.
É o caso de Cyane Panine, a jovem de 24 anos que, momentos antes do incêndio deflagrar, estava nas cavalitas de um colega a segurar duas garrafas de champanhe que continham fogos de artifício, as chamadas "velas mágicas". Nos vídeos partilhados do incidente, é possível ver que, ainda que de forma involuntária, as faíscas incendiaram a espuma de isolamento acústico que cobria o teto do estabelecimento noturno.
Questionado sobre o risco do uso daquele material, Jacques Moretti referiu que não proibiu a empregada de o fazer. "Não a informei sobre nenhuma instrução de segurança. Não percebemos o perigo. A Cyane gostava de fazer aquilo, era um espetáculo. Ela adorava apresentar-se", disse.
No dia seguinte, foi a vez de Jessica Moretti ser ouvida, tendo corroborado com as declarações do marido.
"Ela gostava de fazer aquilo. Se tivesse imaginado o menor risco, teria proibido. Em dez anos à frente do negócio, nunca pensei que pudesse haver qualquer perigo", apontou.
No entanto, os responsáveis pela segurança do bar eram os proprietários. Mas, de acordo com a sessão do tribunal e com as perguntas feitas, os funcionários do Le Constellation nunca terão recebido qualquer tipo de formação de segurança contra incêndios.
"Não houve uma formação formal, mas os funcionários foram instruídos sobre os procedimentos a seguir em caso de incêndio", respondeu Jacques Moretti, explicando que os empregados sabiam que teriam de "retirar os clientes, acionar o alarme e chamar os bombeiros e, se houvesse tempo, usar os extintores para apagar o fogo".
Informação que não é reiterada por uma funcionária que tinha sido contratada semanas antes da trágica noite, notando que não recebeu qualquer tipo de instrução sobre a localização dos extintores do espaço.
"A equipa trabalha por turnos. Talvez, não tenha passado essa informação para L. (funcionária), mas seria dita em algum momento", disse Jacques Moretti.
E a porta de emergência? Porque é que estava trancada?
Já perguntado sobre o porquê da porta de emergência estar fechada, Jacques acusou um dos seus funcionários de ter trancado a porta.
Note-se que vários clientes e funcionários, incluindo Cyane Panine, tentaram escapar por esta porta.
O Le Parisien contactou o funcionário acusado, cozinheiro do Le Vieux Chalet - também dos proprietários do Le Constellation -, que contestou a versão contada pelos patrões.
Sobre a espuma colocada no teto, os proprietários referiram que não foram alertados pela empresa que a colocou que era inflamável e que, na altura da inspeção do estabelecimento, os bombeiros não fizeram qualquer reparo.
"Aceito o que estão a dizer, mas é falso"
Jessica Moretti, por outro lado, nega ter fugido com a caixa registadora do bar quando o fogo começou, rejeitando ainda a imagem que lhe foi atribuída de mulher mercenária, movida, como o seu marido, pela ganância.
"Aceito o que estão a dizer sobre nós, mesmo que seja falso. Não é nada comparado com o que as famílias estão a passar. Trabalhámos duro e incansavelmente. Fizemos sempre o que nos pediram", afirmou.
Sobre o facto de vários menores estarem no interior do estabelecimento noturno, a dona referiu que tem pensado muito sobre isso. "Talvez houvesse documentos falsos, talvez tenham conseguido passar pelo segurança. Talvez alguns tenham entrado durante o incêndio, quando o segurança estava ocupado", notou.
No final da audiência, o casal quis dirigir-se às famílias da vítimas, dizendo que também eles são "vítimas".
"Nós também somos vítimas, não na mesma medida. Perder um filho é a pior coisa que pode acontecer, queria dizer isto", disse Jacques. Já a mulher acrescentou: "É uma verdadeira tragédia. Aconteceu no nosso bar e pedimos desculpa".
Quem era Cyane Panine?
Cyane Panine, de 24 anos, foi uma das 40 vítimas mortais do incêndio. O nome pode ser desconhecido entre a maioria, no entanto, Panine é a jovem funcionária que surge com um capacete na cabeça e a segurar duas garrafas (com fogos de artifício) de champanhe em diversas fotografias e vídeos partilhados nas redes sociais no dia do trágico acidente.
Cyane Panine foi apelidada de "diabo" quando as imagens começaram a aparecer na internet, sendo apontada como uma das principais responsáveis pelo incêndio. No entanto, a advogada da família da jovem explicou que Panine "nunca foi informada acerca dos perigos do teto, nem recebeu qualquer treino de segurança".















