Diretor do Museu de Auschwitz: "Fala-se de genocídio muito facilmente"
- 10/02/2026
"Fala-se de genocídio muito facilmente", afirmou Piotr Cywinski, durante a sessão especial "II Guerra Mundial aos Olhos do Público Contemporâneo - Um Diálogo com o Diretor do Museu de Auschwitz", que decorreu hoje em Lisboa.
"Não gosto do que se passa em Gaza, mas também não gosto que se use um termo muito específico e técnico sem estar determinado por um tribunal", disse, reagindo a uma questão da Lusa sobre o que achava das acusações feitas a Israel sobre genocídio de palestinianos numa altura em que se assinalam 80 anos de libertação daqueles campos de concentração na Polónia, onde morreram cerca de 1,1 milhões de pessoas, a maioria das quais judeus.
O termo, adiantou o polaco que dirige há 20 anos o Museu de Auschwitz, começou a ser banalizado pela atriz Brigite Bardot, quando disse que estava a ser cometido um genocídio sobre as focas.
Mas a existência de um crime de genocídio "ter de ser determinada por um tribunal", que pode ser internacional ou nacional, para ter pleno efeito jurídico e poder haver responsabilização, apontou.
Israel tem sido acusado de crimes de genocídio, crimes contra a humanidade e limpeza étnica por várias organizações internacionais de defesa dos direitos humanos e por líderes de Estado e de governos na sequência da guerra em Gaza, que teve início em outubro de 2023.
Em setembro do ano passado, uma Comissão de Inquérito Independente nomeada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, alegou que as ações de Israel em Gaza "constituem genocídio".
Segunda a presidente dessa comissão, Navi Pillay, "está claro que há a intenção de destruir os palestinos em Gaza por meio de atos que atendem aos critérios estabelecidos na Convenção para Prevenção e Punição do Crime de Genocídio".
Na altura, Navi Pillay pediu à comunidade internacional para não ficar em silêncio, sublinhando que as autoridades e forças de segurança israelitas "cometeram quatro dos cinco atos classificados como genocidas e definidos pela Convenção": assassinato, danos físicos e mentais graves, alterar deliberadamente condições de vida para causar a destruição de um povo e impor medidas para impedir nascimentos.
O Tribunal Internacional da Justiça está a avaliar um processo interposto pela África do Sul -- a que depois aderiram vários Estados como o Brasil, a Espanha, a Irlanda e a Bélgica -- que acusa Israel de genocídio em Gaza.
A acusação tem como base o argumento de que o Governo israelita violou a Convenção da ONU de 1948 sobre genocídio, da qual Israel é signatário.
O tratado das Nações Unidas define o genocídio como crime internacional e obriga os Estados a prevenir e punir qualquer violação.
Em janeiro de 2024, quatro meses após os ataques de 07 de outubro de 2023 liderado pelo Hamas e que provocaram 1.200 mortos em Israel e fizeram 251 reféns, dando início à guerra entre Israel e o grupo islamita, a Tribunal Internacional de Justiça emitiu várias medidas cautelares, pedindo que Israel evitasse qualquer ato de genocídio, alertado para a existência de um "risco real e iminente".
Israel nega todas as acusações de genocídio.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e o seu ex-ministro da Defesa Yoav Gallant são alvos de mandados de detenção internacional emitidos pelo Tribunal Penal Internacional em novembro de 2024, por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, especificamente pelo uso da fome como método de guerra, homicídio, perseguição e outros atos desumanos.
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