Alunos executados na Coreia do Norte por verem "Squid Game"
- 07/02/2026
Cidadãos norte-coreanos, incluindo menores, estão a ser publicamente executados, enviados para campos de trabalho forçado ou sujeitos a cenas de humilhação pública por consumirem entretenimento sul-coreano.
A denúncia foi feita pela Amnistia Internacional, no passado dia 4 de fevereiro, que acusou o governo de Pyongyang de castigar de forma "extrema" os cidadãos que sejam apanhados a ver dramas sul-coreanos (como "Crash Landing on You" e "Descendants of The Sun", que, note-se, abordam temas militares) ou até mesmo a série que se tornou um fenómeno mundial, "Squid Game".
Os castigos incluem também quem se atreva a ouvir qualquer tipo de música dos vizinhos a sul, o que inclui, por exemplo, a banda BTS.
Entrevistados pela organização internacional de defesa de direitos humanos, falam num clima de medo e repressão onde "a cultura sul-coreana é tratada como um crime sério".
Uma das pessoas ouvidas pela Amnistia Internacional relatou ter ouvido de uma pessoa que escapou da Coreia do Norte, que várias pessoas, incluindo alunos do secundário, foram executados na província de Yanggang por verem a série "Squid Game".
O relato não vem isolado: a Radio Free Asia já tinha também reportado execuções em Hamgyong do Norte (que faz fronteira com Yanggang) por distribuir a série.
"Vistos lado a lado, estes relatos de províncias diferentes sugerem múltiplas execuções relacionadas com as séries", conclui a Amnistia Internacional.
Autoridades dizem a cidadãos para assistir às execuções
Choi Suvin ainda não tinha chegado à maioridade quando assistiu a uma destas execuções. Vivia em Sinuiji, e era o ano de 2017 ou 2018 - já não consegue precisar. O executado tinha sido condenado por distribuir conteúdos estrangeiros.
"As autoridades disseram a toda a gente para ir, e dezenas de milhares de pessoas da cidade de Sinuiju reuniram-se para ver", contou à organização. "Eles executam pessoas para nos fazerem uma lavagem cerebral e para nos educar".
Suvin não é a única que relata estes acontecimentos.
"Quando tínhamos 16, 17 anos, no ensino médio, eles levavam-nos a execuções e mostravam-nos tudo", conta Kim Eunju, hoje com 40 anos. "As pessoas eram executadas por ver ou distribuir conteúdo sul-coreano. É educação ideológica: se vires isto, isto também te vai acontecer".
E mesmo assim, "toda a gente sabe, que toda a gente vê", incluindo quem faz a fiscalização.
"Trabalhadores veem abertamente, membros partidários veem orgulhosamente, agentes de segurança veem secretamente, e a polícia vê em segurança. Toda a gente sabe que toda a gente vê, incluindo quem fiscaliza", contou um outro entrevistado à Amnistia Internacional.
Famílias com dinheiro ou contactos escapam à punição
Mas nem todos os que são apanhados a ver, nomeadamente pelo "Grupo 109" (uma unidade policial especializada que conduz buscas aleatórias e sem mandados judiciais tanto em casas como nas ruas), conseguem escapar à punição.
"As pessoas são apanhadas pelo mesmo crime, mas o castigo depende inteiramente no dinheiro", explicou ainda Suvin. "Pessoas sem dinheiro vendem as casas para conseguir cinco mil ou dez mil dólares americanos para pagarem a saída dos campos de reeducação", contou.
Kim Joonsik, de 28 anos, foi um dos ‘sortudos’. Foi apanhado a ver dramas sul-coreanos em três ocasiões distintas antes de sair do país em 2019, mas conseguiu sempre escapar à punição. A família tinha "contactos".
"Normalmente, quando alunos do secundário são apanhados, se a família deles tiver dinheiro, eles só são avisados", disse. "Eu não recebi nenhuma punição legal porque nós tínhamos contactos".
Enquanto isso, três amigas da irmã de Joonsik foram condenadas a vários anos em campos de trabalho forçado, porque as famílias não tinham dinheiro suficiente para subornar as autoridades.
Em 2020, a Coreia do Norte aprovou o Ato de Pensamento e Cultura Anti-Reacionários, onde definiu conteúdos sul-coreanos como "ideologia podre que paralisa o sentido revolucionário do povo". A pena, para quem vê ou possui os conteúdos, pode ir de cinco a 15 anos de trabalho forçado.
Contudo, a lei prevê a pena de morte para distribuir "grandes quantidades" ou organizar eventos de grupo para consumir os produtos sul-coreanos.
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